Drible impossível

Véspera da final da copa do mundo de 2014. Todos os ingressos para a partida final no Maracanã estão esgotados há meses. O mundo aguarda ansioso pela final do torneio mais assistido no planeta. Neymar, considerado o melhor jogador da atualidade, está terminando uma sessão de alongamentos quando recebe a orientação para se vestir e ir até o escritório da FIFA no Rio, para uma reunião de urgência com patrocinadores.

Ao entrar na sala indicada, Neymar encontra apenas um homem alto, de cabelos brancos, fumando um charuto, com um terno preto, de costas, falando ao celular. O homem apenas resmunga alguns “u-hum”, sentencia “Just do it!” e desliga o telefone, virando-se para o jovem craque brasileiro:

– Neymar! How are you? Take a sit, please!

Desconcertado, o garoto se senta numa cadeira bem confortável e ousa umas palavras em inglês:

– I don’t speak english very well, melhor chamar um intérprete.

Então, com um sorriso compreensivo o velho homem senta-se ao lado de Neymar e explica num português mal falado, bem carregado no sotaque gringo:

– Nou ter problema. Eu entender bem o português. Podemos falar sozinhos. Desculpe-me, mas creio nou ter me apresentado. I am Mike! – conclui com um aperto de mão.

– Prazer, Mr. Mike! Mas, me disseram que era urgente...

– Yes, yes! Muito urgente!

– Mas você representa qual patrocinador?

– Todos! Eu falar aqui em nome de todos os patrocinadores seus. Eu ser bem direto. Espanha precisa ganhar o Copa. E você precisa garantir isto.

Neymar deixa escapar uma gargalhada nervosa enquanto balbucia:

– Isso é brincadeira, né? É joke? – e olha fixamente para os olhos azuis do velho homem enquanto sua risada vai murchando até fechar a cara – Não é brincadeira?

– No! Isso ser o assunto mais sério do seu vida!

Ainda com um sorriso no fundo do olhar, como quem não acredita no que está ouvindo, Neymar tenta argumentar:

– Mas o que os meus patrocinadores ganham se o Brasil perde?

Então o velho deixa escapar um breve sorriso de deboche e explica:

– Meu jovem, nou dever se preocupar com isto. Você ter que fazer o que os patrocinadores dizem e tudo ficará bem. Well, nosso grupo patrocina todos os equipes que participam do Copa. Lucramos de qualquer jeito.

– Mas então por que não deixam a bola rolar e que os melhores vençam?! – pergunta Neymar já com olhos marejados.

– Meu jovem. Esse esporte é tom presente para os povos de toda a mundo que nou é só um esporte. It’s business e é política também. Há coisas que você nou entender, mesmo que eu explicar.

– Não vou jogar pra perder! – aumenta o tom da voz enquanto se levanta e vai dando as costas ao gringo.

– Cuidado! Se não escutar o que eu dizer, terá problemas! – alerta e ironiza – Mesmo porque você nou se recusou para o Barcelona vencer no Mundial de 2011...

– Mas aquilo era o Santos. Isso é o Brasil e a Copa do Mundo no Brasil. Não dá pra entregar!

O homem fica parado olhando o jovem jogador num silêncio que se arrasta por alguns longos segundos. Neymar então pergunta:

– E que problemas eu poderia ter?

O homem se aproxima de Neymar e como se fosse um amigo, ou um avô que se preocupa com ele, coloca as mãos em seus ombros e diz em um tom maternal:

– Você já ganhar muito dinheiro. Nou vamos convencer você com mais dinheiro. Você dever pensar apenas que seu família, pessoas que você ama gostam de viajar de avion. E tem muitos avions que caem. Acidentes de carro. Você nou querer isso. E o seu filho? Como se chama? – Neymar responde abaixando a cabeça em silêncio – Você não querer nada de mal para ele, right?

Neymar balança a cabeça dizendo que não.

– Basta você garantir que Espanha vai ser campeon e tudo ficará bem! – sentencia o velho com um sorriso ansioso.

Neymar se senta e fica calado por quase um minuto. Quase chorando responde ao velho:

– Se é assim, então não vou jogar. Não vou entrar em campo. Vou dizer pro técnico que a dor no joelho voltou e que não dá pra mim.

O velho se aproxima e senta ao lado dele mais uma vez:

– Neymar. Precisamos de você. Tem que jogar o partida inteiro. E toda vez que tiver que decidir, terá que errar. Jogar a bola pro fora! Out! É só isto. – vendo que ainda há resistência no garoto, o velho respira fundo e continua – Nós que pagamos todos os seus contas. Sabemos cada passo que dá você e seu família. Nou queremos que nada de ruim possa acontecer, mas você precisa colaborar com isto.

Com uma lágrima correndo no rosto, Neymar confirma com a cabeça:

– Tá bom.

Antes que ele conseguisse sair da sala, o velho profere um último alerta:

– Mais uma coisa. Se você falar para qualquer um, mesmo para o seu pai, qualquer coisa que falamos aqui nesta sala, vai se arrepender. Is it clear?

Neymar vira as costas, sai e bate a porta.

Desde menino Neymar sonhava em ser um herói popular, como Ronaldo ou mesmo Pelé. Seu pai o encorajava a valorizar mais a arte do futebol do que o dinheiro. Mas ele se via agora num beco sem saída. Só que em vez do muro, no fim do beco tinha um Maracanã lotado, com mais de cem mil vozes gritando em uníssono: “Neymar! Neymar! Neymar!”

Caio Dezorzi
Fevereiro de 2012, conto originalmente escrito para o jogo autoral "Filacantos". A primeira versão era mais longa, com mais detalhes, mas foi reduzida para se adequar às regras do jogo autoral que só permite textos com até 5 mil caracteres com espaços.